Friday, July 07, 2006

A Opus Dei na A. Latina


Por Henrique Júdice Magalhães
Analisando a estrutura de classes dos países latino-americanos,
Darcy Ribeiro identificava como segmento hegemónico dentro das
classes dominantes o corpo de gerência das transnacionais. Ponta de
lança do
imperialismo, é ele quem dita ordens e impõe ideologias às demais
fracções e, em muitos casos, organiza-as politicamente. A
desnacionalização das economias latino-americanas na década de 90
agravou este quadro. A alteração de mais relevo no perfil da classe
dominante verificada no bojo deste processo é o crescimento da
influência da Opus Dei. Sustentada pelo capital espanhol, a
organização controla jornais, universidades, tribunais e entidades de
classe, sendo hoje peça chave para se compreender o processo político
no continente, inclusive no Brasil, onde quer eleger Geraldo Alckmin
presidente da República.
Procissão Católica na Espanha, berço da Opus Dei.
Mas o que é afinal, a Opus Dei (em latim, Obra de Deus)?
Em seu campo original de actuação, é a vanguarda das tendências mais
conservadoras da Igreja Católica. "Este concílio, minhas filhas, é o
concílio do diabo" teria dito seu fundador, Josemaria Escrivá de
Balaguer, sobre o Vaticano II, no relato do jornalista argentino
Emilio J. Corbiere no seu livro "Opus Dei. El totalitarismo
católico".
Fundada na Espanha em 1928, a organização foi reconhecida pelo
Vaticano em 1947. Em 1982, foi declarada uma prelatura pessoal, o
que, sob o Direito canónico, significa que só presta contas ao papa e
que
seus membros não se submetem à jurisdição dos bispos. "A relação
entre Karol Wojtyla e a Opus Dei" conta o teólogo espanhol Juan José
Tamayo Acosta "atinge seu êxito nos anos 80-90, com a irresistível
ascensão da Obra à cúpula do Vaticano, a partir de onde interveio
altivamente, primeiro no esboço e depois na colocação em prática do
processo de restauração da Igreja católica sob o protagonismo do papa
e a orientação teológica do cardeal alemão Ratzinger."
Fontes ligadas à Igreja Católica atribuem o poder da Obra à quitação
da dívida do Banco Ambrosiano, fraudulentamente falido em 1982.
Obscurantismo e misoginia são traços que marcam a organização.
Exemplos podem ser encontrados nas denúncias de ex-adeptos como Jean
Lauand, professor da Faculdade de Educação da Universidade de São
Paulo - Universidade de São Paulo (USP), que recentemente escreveu
junto com mais dois ex-membros, o juiz Márcio Fernandes e o médico
Dário Fortes Ferreira, o livro "Opus Dei - os bastidores". Em
entrevista ao programa Biblioteca Sonora, da Rádio USP, Jean Lauand
conta que a Obra tem um "Index" de livros proibidos que abrange
praticamente toda a filosofia ocidental desde Descartes. Noutra
entrevista, à revista Época, Jean Lauand denuncia as estratégias de
fanatização dos chamados numerários, leigos celibatários que vivem em
casas da organização: "Os homens podem dormir em colchões normais, as
mulheres têm de dormir em tábuas. São proibidas de
segurar crianças no colo e de ir a casamentos". É obrigatório o uso
de cinturões com pontas de ferro fortemente atados à coxa, como
prática de mortificação que visa refrear o desejo. Mas os danos
infligidos pelo fanatismo não se limitam ao corpo.
No site que mantém com outros dissidentes (
http://www.opuslivre.org/), Jean Lauand revela que a Obra conta com
médicos especialmente encarregados de receitar psicotrópicos
numerários em crise nervosa.
A captação de numerários dá-se entre estudantes de universidades e
escolas secundárias de elite. Centros de estudos e obras de caridade
servem de fachada. A Opus Dei tem forte presença na USP, em especial
na Faculdade de Direito, onde parte do corpo docente é composta por
membros e simpatizantes, como o numerário Inácio Poveda e o director
Eduardo Marchi. Outro expoente da organização na USP é Luiz Eugênio
Garcez Leite, professor da Faculdade de Medicina e autor de panfletos
contra a educação mista. A Obra actua também na Universidade Federal
do Rio de Janeiro (UFRJ), Universidade de Campinas (Unicamp)
Universidade de Brasília (UnB).
Fazendo a América
Mas a Opus Dei é mais que um tema de saúde pública. Ela tem, desde a
origem, uma clara dimensão política. Durante a ditadura de Franco,
praticamente fundiu-se ao Estado espanhol, ao qual forneceu ministros
dirigentes de empresas e órgãos governamentais.No fim da década de
40, inicia sua expansão rumo à América Latina. Não foi difícil
conquistar adeptos entre oligarquias como as da Cidade do México,
Buenos Aires e Lima, que sempre buscaram diferenciar-se de seus
povos apegando-se a um conceito conservador de pretensa hispanidade.
Um dos elementos definidores desse conceito é exactamente o
integralismo católico. Alberto Moncada, outro dissidente, conta em
seu livro "La evolución del Opus Dei": "os jesuítas decidiram que seu
papel na América Latina não deveria continuar sendo a educação dos
filhos da burguesia, e então apareceu para a Opus Dei a ocasião de
substituí-los - ocasião que não hesitou em aproveitar".
No Brasil, a organização deitou raízes em São Paulo no começo da
década de 50, concentrando sua actuação no meio jurídico. O promotor
aposentado e ex-deputado federal Hélio Bicudo conta que por
duas vezes juízes tentaram cooptá-lo. Seu expoente de maior destaque
foi José Geraldo Rodrigues Alckmin, nomeado ministro do Supremo
Tribunal Federal (STF) por Médici em 1972 e tio do actual governador
de São Paulo. Acontece que nos anos 70, o poder da Opus Dei era
embrionário. Tinha quadros em posições importantes, mas sem actuação
coordenada. Além disso, dividia com a Tradição, Família e Propriedade
(T.F.P.) as simpatias dos católicos de extrema-direita.
Era natural, da mesma forma, que, alguns quadros dos regimes
nascidos dos golpes de Estado de 1966 e 1976, na Argentina, e 1973,
no Uruguai, fossem também quadros da Opus Dei. Mas segundo se lê no
livro de Emilio J. Corbiere , sua actuação era ainda dispersa, o que
não os impediu de controlar a Educação na Argentina durante o período
Onganí (1966-70).
Já no Chile, a Opus Dei foi para o pinochetismo o que havia sido
para o franquismo na Espanha. O principal ideólogo do regime, Jaime
Guzmá, era membro activo da organização, assim como centenas de
quadros
civis e militares.
No México, a Obra conseguiu fazer Miguel de la Madrid presidente da
República em 1982, iniciando a reversão da rígida separação entre
Estado e Igreja imposta por Benito Juárez entre 1857 e 1861.
Internacional reaccionária
A Opus Dei não criou o reacionarismo católico, antes, teve nele sua
base de cultura. Mas sistematizou-o doutrinariamente e organizou
politicamente seus adeptos de uma forma quase militar. Hoje, funciona
como uma espécie de Internacional reaccionária, congregando,
coordenadamente, adeptos em todo o mundo.
Concorrem para isto, nos anos 90, o ápice do poder da Obra no
Vaticano e a invasão da América Latina por transnacionais espanholas.
A Argentina entregou suas estatais de telefonia, petróleo, aviação e
energia á Telefónica, Repsol, Iberia e Endesa, respectivamente. A
Telefónica controla o sector também no Peru e em São Paulo. A Iberia
já havia engolido a LAN, do Chile, onde a geração de energia também
é controlada pela Endesa. Bancos espanhóis também chegaram ao
continente neste processo.
No Brasil, o Santander comprou o Banespa e o Meridional, enquanto
que o BBVA recebeu os activos do Excel através do Proer, no governo
de Fernando Henrique Cardoso.
"A Opus Dei tem sido para o modelo neoliberal o que foram os
dominicanos e franciscanos para as cruzadas e os jesuítas frente à
Reforma de Lutero" compara José Steinsleger, colunista do diário
mexicano "La Jornada".
A organização actua também no monopólio da imprensa. Controla o
jornal "El Observador", de Montevidéu, e exerce influência sobre
órgãos tradicionais da oligarquia como "El Mercurio", no Chile, "La
Nación", na Argentina e "O Estado de São Paulo", no Brasil. O elo com
a imprensa é o curso de pós-graduação em jornalismo da Universidade
de Navarra em São Paulo, coordenado por Carlos Alberto di Franco,
numerário e comentarista do "Estadão" e da Rádio Eldorado. O segundo
homem da Opus Dei na imprensa brasileira é o também numerário
Guilherme Doring Cunha Pereira, herdeiro do principal grupo de
comunicação do Paraná ("Gazeta do Povo"). Os jornalistas Alberto
Dines e Mário Augusto Jakobskind denunciam que a organização controla
também a Sociedade Interamericana de Imprensa - SIP (na
sigla em espanhol).
Sediada na Espanha, a Universidade de Navarra é a jóia da coroa da
Opus Dei no negócio do ensino. Sua receita anual é de 240 milhões de
euros. Além disso, a Obra controla as universidades Austral
(Argentina), Montevideo (Uruguai), de Piura (Peru), de Los Andes
(Chile), Pan Americana (México) e Católica André Bello (Venezuela).
Dentro da igreja católica, a Opus Dei emplacou, na última década,
vários bispos e Cardeais na América Latina. O mais notável é Juan
Luís Cipriani, de Lima, no Peru, amigo íntimo da ditadura de Alberto
Fujimori. Em seu estudo "El totalitarismo católico em el Peru",
jornalista Herbert Mujica denuncia que quando o Movimento
Revolucionário Tupac Amaru tomou a embaixada do Japão, em 1997, Juan
Luís Cipriani, valendo-se da condição de mediador do conflito,
instalou equipamentos de escuta que possibilitaram à polícia invadir
a casa e matar os ocupantes.
Na Venezuela, a Obra teve papel essencial no fracassado golpe de
2002 contra Hugo Chávez. Um dos articuladores da tentativa foi José
Rodríguez Iturbe, nomeado ministro das Relações Exteriores. Também
participou da articulação à embaixada da Espanha, governada na época
pelo neo-franquista Partido Popular (PP).
Após os reveses na Venezuela, as esperanças da Opus Dei voltaram-se
para Joaquím Laví, no Chile, e Geraldo Alckmin, no Brasil, hoje seus
quadros políticos de maior destaque. Joaquím Laví foi derrotado nas
últimas eleições presidenciais chilenas em Dezembro. Resta o Brasil,
onde a Obra tenta fazer de Geraldo Alckmin presidente e formar um
eixo geopolítico com os governos Álvaro Uribe (Colombia) e Vicente
Fox
(México), aos quais está intimamente associada.
Entranhas mafiosas
Além das dimensões religiosa e política, a Opus Dei tem uma terceira
face: a de sociedade secreta de cunho mafioso. Em seus estatutos
secretos, redigidos em 1950 e publicados em 1986 pelo jornal italiano
"L´Expresso", a Obra determina que "os membros numerários e
supernumerários saibam que devem observar sempre um prudente silêncio
sobre os nomes dos outros associados e que não deverão revelar nunca
a ninguém que eles próprios pertencem à Opus Dei."
Inimiga jurada da Maçonaria, ela copia sua estrutura fechada o que
frequentemente serve para encobrir actos criminosos.
Entre os católicos, a Opus Dei é conhecida como "Santa Máfia",
Emilio J. Corbiere lembra os casos de fraude e remessa ilegal de
divisas nas empresas espanholas Matesa e Rumasa, em 1969, onde parte
dos activos desviados financiaram a Universidade de Navarra. Bancos
espanhóis são suspeitos de lavagem de dinheiro do narcotráfico e da
máfia russa. A Opus Dei também esteve envolvida nos episódios de
falência fraudulenta dos bancos Comercial (Uruguai, pertencente
família Peirano, dona de "El Observador") e de Crédito Provincial
(Argentina).
Na Argentina os responsáveis pelas desnacionalizações da petrolífera
YPF e das Aerolineas Argentinas, compradas por empresas espanholas,
em dois dos maiores escândalos de corrupção da história
do país, tiveram sua impunidade assegurada pela Suprema Corte, onde
pontificava António Boggiano, membro da Opus Dei.
No Brasil, as pretensões de controlo sobre o Judiciário esbarram no
poder dos Maçons.
A Opus Dei controla, porém, o Tribunal de Justiça de São Paulo
através da manipulação de promoções. Segundo fontes do meio jurídico
paulista, de 25 a 40% dos juízes de primeira instância no estado
pertencem à organização - proporção que se repete entre os
promotores, no tribunal, a proporção sobe para 50 a 75%.
Recentemente, o tribunal, em julgamento secreto, decidiu pelo
arquivamento de denúncia contra Saulo Castro Abreu Filho, braço
direito de Geraldo Alckmin, acusado de organizar grupos de extermínio
desde a secretaria de Segurança, e contra dois juízes acusados de
participação na montagem desses grupos.
A fusão dos tribunais de Justiça e de Alçada, determinada pela
Emenda Constitucional n.º 45, foi uma medida da equipe do ministro da
Justiça, Mácio Thomaz Bastos, para reduzir o poder da Obra no
judiciário paulista, cuja orientação excessivamente conservadora,
principalmente em questões criminais e de família, é motivo de alarme
entre profissionais da área jurídica.

Friday, June 09, 2006

Filosofia e Sociologia como disciplinas obrigatórias

Na quinta-feira (08/06), participei, na Assembléia Legislativa de Minas Gerais, de uma audiência pública, cujo tema a ser debativo foi a proposta de inclusão da Filosofia e Sociologia como disciplinas obrigatórias em todo o Ensino Médio, tanto estadual quanto nacional. Hoje tais disciplinas fazem parte da parte diversificada do currículo nacional, o que significa que as mesmas são consideradas não tão importantes quanto às outras disciplinas. O interessante é que essas disciplinas foram retiradas do currículo (implantaram Moral e Cívica e OSPB) a partir do Golpe Militar de 64, com a implantação do sistema ditatorial no Brasil, e de quebra, na América Latina. Com o processo de redemocratização, iniciado há duas décadas, essas disciplinas estão voltando a ocupar o espaço a que têm direito. É possível que logo seja votada a emenda à constituição que obrigará a inclusão das disciplinas mencionadas. Talvez o sistema educacional tenha a ganhar com isso, já que os alunos poderão ter mais tempo e espaço para o debate, a discussão, o uso do raciocínio lógico e crítico. Vamos aguardar pra ver.

http://novaescola.abril.com.br/especiais/regime_militar/regime_militar.htm

Friday, May 12, 2006

Sartre


Este é a meu ver um dos maiores filósofos do Séc. XX
Jean-Paul Sartre nasceu em Paris a 21/06/1905 e morreu na mesma cidade a 15/04/1980 Estudou desde 1924 na École Normale Supérieure. Em 1931 foi nomeado professor de filosofia em Le Havre; em 1937, no Lycée Pasteur, em Paris.

Convocado para o serviço militar em 1939, foi em 1940 prisioneiro dos alemães. Libertado em 1941, voltou para Paris, lecionando no Lycée Condorcet e participando da Resistência. Depois da guerra, em 1945, foi licenciado por tempo indeterminado.

Chefe dos grupos existencialistas e fundador da revista literária e política Les Temps Modernes , além de escrever para o jornal de Paris Libértacion, da esquerda. Sartre escreve sua obra filosófica principal, O Ser e o Nada, em 1943. Mas em 1938 já havia publicado o romance A Náusea.

Seu pensamento é muito conhecido e gerou, inclusive, uma "moda existencialista", também pelo fato de Sartre ter se tornado um famoso romancista e teatrólogo. Sua produção intelectual foi fortemente marcada pela Segunda Guerra Mundial e pela ocupação nazista da França. Podemos dizer que há um Sartre de antes da guerra e outro pós-guerra, de tal forma o impacto da Resistência Francesa agiu sobre sua concepção política de engajamento.

A noção de engajamento significa a necessidade de um determinado pensador estar voltado para a análise da situação concreta em que vive, tornando-se solidário nos acontecimentos sociais e políticos de seu tempo. Pelo engajamento, a liberdade deixa de ser apenas imaginária e passa a estar situada e comprometida na ação. Assim, ao escrever a peça de teatro As Moscas, que versa sobre o tema do mito grego de Orestes e Electra, Sartre na verdade faz uma alegoria à ocupação alemã em Paris. Com essa obra, inaugura o chamado "teatro de situação".

Ao lado de Simone de Beauvoir, também filósofa existencialista e sua companheira de toda a vida, Sartre participou da vida política não só da França, mas mundial. Apesar de marxista, nunca deixou de criticar o autoritarismo, sobretudo quando as forças soviéticas invadiram a Tchecoslováquia. Saía à rua em protestos e, com a impunidade que lhe conferia a sua figura de cidadão do mundo, vendia nas esquinas La Cause du Peuple (A Causa do Povo), jornal maoísta, sem que ninguém ousasse prendê-lo.

Sartre pertence à ala dos filósofos existencialistas ateus, entre os quais se inclui Merleau-Ponty; na ala cristã, está Gabriel Marcel. Voltaremos a falar nele em outras postagens.

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